| O BRASIL É EXEMPLO |
Diretor executivo da Linux International, organização sem fins lucrativos dedicada à promoção do sistema operacional Linux, Jon Maddog Hall parece um druida saído dos bosques da Bretanha. Ele é formado em Comércio e Engenharia pela Universidade de Drexel (Filadélfia, EUA), com Mestrado em Ciências da Computação, e foi professor durante muitos anos. Seus alunos lhe deram o apelido de "Maddog" (cachorro louco), que adotou desde os anos 70, quando começou a mexer com software livre.
Hall já atuou como programador, projetista e administrador de sistemas, gerente de produto, técnico de marketing, e trabalhou para empresas como Western Electric Corporation, Aetna Life and Casualty, Bell Laboratories, Digital Equipment Corporation e Compaq. Na Linux, começou em 1995 e até hoje é um "voluntário". Em palestra no V Fórum Internacional do Software Livre, em Porto Alegre, elogiou a aplicação de sistemas em código aberto pelo governo brasileiro, empresas e escolas e deu entrevista exclusiva para a Revista Tema.
QUAL O FUTURO DO SOFTWARE LIVRE E O FUTURO DO LINUX?
Todo o modelo de software livre está em desenvolvimento. De muitas maneiras
o software livre gera trabalho negócios, da mesma forma que o software
proprietário: certificação e treinamento, instalação e integração de sistemas,
correção do sistema operacional (bugfixing). Ao contrário dos programas
de fonte fechada, o software livre é de fonte aberta (a sigla em inglês
é Foss – Free and Open Source Software) e permite que o integrador e o
bug fixer sejam a mesma pessoa, ao invés do funcionário de manutenção
do sistema. No software proprietário, as modificações só são permitidas
até certo ponto. Apenas programadores com alto nível de treinamento e
especialização podem fazer mudanças que atendam aos consumidores finais.
Com a fonte aberta, transformamos o modelo onde as pessoas pagam a cada
vez que usam um software que não faz exatamente o que elas querem, para
outro modelo, em que pagam uma vez pelo produto, desenhado segundo seu
perfil. E ainda contribuem, ao trazer as adaptações para a comunidade,
de maneira que novos usuários possam usufruir das evoluções.
COMO UMA ORGANIZAÇÃO SEM FINS LUCRATIVOS PAGA O SALÁRIO DAS
PESSOAS QUE NELA TRABALHAM?
A definição de uma organização "sem lucratividade" não significa que ela
não receba dinheiro. Nos Estados Unidos, reconhece-se que esse tipo de
empresa presta algum serviço (educação, certificação, saúde) em prol do
bem comum, e que ela não tem patrocinadores vivendo dos fundos gerados...
Em outras palavras, a receita cobre mais ou menos as despesas. A empresa
norte-americana United Way é um exemplo de corporação que
não visa ao lucro, mas paga a seus executivos bons salários. A Linux International
(LPI), um outro tipo de organização sem fins lucrativos, não tem funcionários
pagos. Todos são voluntários, inclusive eu.
O SENHOR NÃO TEM SALÁRIO?
Apenas uma pequena parte de minhas despesas vem do orçamento da LPI, geralmente
para complementar convites para eventos internacionais onde não encontro
quem me financie. Todas as viagens são custeadas por pessoas que querem
me ouvir falar. Por outro lado, dificilmente eu peço honorários, uma vez
que são oportunidades para se divulgar o software livre e isso representa
a minha contribuição à comunidade. Meu salário é pago pelas companhias.
Originalmente, era a Digital Equipment Corporation, depois a Compaq, a
VA Linux Systems, a IBM e agora a Silicon Graphics. Algumas vezes eu presto
consultoria a essas empresas, mas a maior parte do tempo elas me pagam
para eu falar do software livre. Há mais ou menos um ano, eu fiquei absolutamente
sem salário por nove meses. Continuei a pregar pelo mundo mesmo assim.
Tirei do meu próprio bolso US$ 250 mil. Não me arrependo.
QUE CONSELHOS DARIA A QUEM QUER COMEÇAR UM NEGÓCIO COM SOFTWARE LIVRE?
Se uma pessoa pretende entrar no negócio de software livre e de fonte
aberta (Foss), sugiro que pense em maneiras de ganhar dinheiro. Lembrem-se
de que o F da palavra Foss significa Freedom, liberdade. É a liberdade
impressa no código-fonte que permite às pessoas mudá-lo e desenvolvê-lo.
Usuários escrevem códigos-fonte por várias razões, assim como um pintor
amador faz arte por muitas razões. A maior parte por amor. Eles não esperam
lucros com isso. Querem que as pessoas vejam a sua arte e gostem dela.
Não guardam sua obra dentro de casa. De vez em quando vendem uma peça
ou duas. Mesmo que não consigam vender, continuam pintando. Muitos administradores
de sistemas elaboram códigos para tornar seu trabalho mais fácil. O ponto
é que as pessoas podem economizar tempo e dinheiro fazendo seu trabalho
e ajudando outros a desenvolver o software.
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“Com a fonte aberta, transformamos o modelo onde as pessoas pagam a cada vez que usam um software que não faz exatamente o que elas querem, para outro modelo, em que pagam uma vez pelo produto, desenhado segundo seu perfil.” |
E COMO FAZER PARA COBRAR POR ESSE SERVIÇO?
É maravilhoso colocar energia no desenvolvimento de software livre, mas
não há nenhum motivo para que as pessoas não sejam compensadas pelo tempo
que empenharam. Essa compensação pode vir sob a forma de codificação ou
documentação. Desde que outros estejam fazendo a mesma coisa, isso age
como um fator de amplificação, e é bom ver o seu trabalho realizado. Ao
mesmo tempo, isso é administração de sistemas, é estar operando num ambiente
de escritório, com áudio e vídeo e um grande número de ferramentas que
o software facilita. Sua vida se torna mais fácil com cooperação. Se você
é um programador profissional, pode achar que as contribuições de centenas
de milhares de programadores trabalhando juntos ajudam na tarefa de propor
soluções para sua empresa. Então você retorna com as soluções que encontrou.
E também você pode cobrar dos clientes pelo tempo e esforço despendidos.
JÁ EXISTE MERCADO PARA ISTO?
Muitas vezes, a compensação pode vir sob a forma de convites para viajar
e falar sobre seu código. De outras, você consegue um trabalho melhor
porque as pessoas estão atentas ao que está fazendo com o software livre.
Lembre-se de que há basicamente dois tipos de negócio: um é o produto
criado para ser vendido, o outro é o serviço. Apesar de algumas pessoas
reagirem à palavra serviço – pensando que isso significa trabalho mal
remunerado, lembro que médicos, advogados e profissionais altamente qualificados
provêem serviços à população.
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“O software livre é uma revolução sem volta. Cedo ou tarde as empresas que quiserem continuar no mercado terão que se adaptar. O software proprietário ficará restrito a pequenos grupos de usuários que lidarão com programas muito específicos e caríssimos.” |
O SENHOR DISSE QUE O BRASIL "É UMA ESTRELA CINTILANTE DO SOFTWARE LIVRE".
POR QUE É FÃ DO BRASIL?
Sou um fã? Certo, eu gosto do Brasil. Admiro os brasileiros, que vejo
como pessoas cálidas e adoráveis. Também gosto de muitos outros países
da América do Sul e Central, assim como da Europa e da Ásia. Posso
destacar a Austrália e a Nova Zelândia, a China e a Rússia e as nações
árabes. Eu queria que todos se dessem bem. Amo meu país, os Estados Unidos,
a despeito de todos os erros do povo e de seus líderes. Acho que todo
mundo deveria amar a terra onde nasceu, e essa terra deveria se fazer
merecedora desse amor. Não me agrada quando as pessoas resolvem deixar
o país para ir atrás de sonhos e ambições.
O SOFTWARE LIVRE TEM ALGO A VER COM ISSO?
Creio que o Foss tem tudo para ajudar o Brasil a desenvolver uma economia
própria nesse campo, onde se possa empregar e pagar bem aos seus desenvolvedores,
e que o país possa vender e até exportar software. Quando eu disse que
o Brasil é uma estrela cintilante no céu do software livre, estava reconhecendo
que os brasileiros, em sua curta convivência com o Linux, já haviam descoberto
o potencial do software de fonte aberta. Uma demonstração é o Fórum do
Software Livre, que está em sua quinta edição e é a maior conferência
sobre esse assunto no mundo. É uma oportunidade de reunir o governo, a
iniciativa privada e a comunidade do software livre. Grupos estão desenvolvendo
projetos que beneficiam as esferas de governo, as instituições educacionais
e a indústria. Gostaria que outros países (e particularmente o meu) prestassem
atenção no que o Brasil está fazendo.
OPTAR POR OUTRAS SOLUÇÕES SIGNIFICA UMA DERROTA PARA O SOFTWARE PROPRIETÁRIO?
Não, não acho que seja uma derrota. O software livre é uma evolução que
algumas empresas, como a Microsoft, deveriam ter assumido há algum tempo.
Fico triste de que a Microsoft não tenha abraçado o software livre, ao
invés de ficar brigando tanto com a idéia.
COMO TUDO COMEÇOU?
Entre 1943 e 1977, a maioria dos softwares era escrita especificamente
para resolver os problemas dos consumidores. Computadores eram tão caros,
tão lentos e tinham memória tão pequena que os programas eram feitos para
atender àquela capacidade. Quando o código era escrito, você tinha a propriedade
dele, e se quisesse mudá-lo no futuro, poderia voltar ao programador original
ou procurar outro, uma vez que você detinha o código-fonte. Quando o preço
das máquinas caiu, entre os anos 1970 e 1980, as pessoas começaram a ver
que podiam confeccionar software da mesma maneira como faziam com hardware.
E aí, compartilhando os conhecimentos com centenas, milhares de interessados,
provocariam uma queda nos custos. Foi onde a Microsoft começou.
O SOFTWARE LIVRE É UMA TENDÊNCIA MUNDIAL?
Os problemas se agravaram em meados de 1990, quando as companhias juntaram
tantos usuários que elas já não podiam mais atendê-los, sequer responder
às suas dúvidas. Então, desde que as empresas não conseguiam
dar soluções e você não tinha acesso ao código, criou-se um impasse. Esta
é o que eu chamo a segunda fase da programação. Sinto que nós estamos
na terceira fase. Os custos de hardware estão em declínio, quase próximos
ao zero (relativamente falando), bem como as conexões em rede, com mais
pessoas sabendo como escrever sofisticados programas, seja por meio de
treinamento, seja aprendendo em livros. Mais e mais gente quer e procura
conhecimentos sobre como fazer software para ser usado por muitos. Esta
fase fica evidente pela criação de grande volume de programas de código-aberto,
disponíveis na net, e que são feitos sob medida para os consumidores.
Mas essas mudanças são colocadas agora gratuitamente, de maneira que o
código-base cresça.
JÁ É POSSÍVEL MEDIR A EXPANSÃO DO SOFTWARE LIVRE
EM NÚMEROS?
Alguns países estão apenas começando, outros fizeram consideráveis avanços.
O governo alemão, por exemplo, vem usando o Linux em seus servidores há
algum tempo. A prefeitura de Munique migrou 14.000 desktops. A Inglaterra,
a França e a China estudam a possibilidade de fazer maciças adesões ao
Linux. Ainda mais expressivo é o fato de a maioria dos computadores da
lista dos 500 mais rápidos do mundo usarem Linux. E os novos supercomputadores
também. Sistemas embutidos estão usando Linux e o número de servidores
que adotaram o pingüim está crescendo rapidamente. Eu chamo o Linux de
"sistema operador para todas as estações".
O SOFTWARE LIVRE VAI SE DISSEMINAR PELO MUNDO TODO?
Bem, eu estou nisso desde 1969. O software livre é uma revolução sem volta.
Cedo ou tarde as empresas que quiserem continuar no mercado terão que
se adaptar. O software proprietário ficará restrito a pequenos grupos
de usuários que lidarão com programas muito específicos e caríssimos.