Matéria destaque


   INCLUSÃO DIGITAL

 

Ilustração


A vez dos pequenos
  

Governo Federal aposta na 
multiplicação dos telecentros 
de informação e negócios para micro e pequenas empresas

Em um cenário de competição acirrada de um mundo cada vez mais globalizado, a sobrevida das micro e pequenas empresas é ameaçada a cada dia. Manter um pequeno negócio hoje depende, cada vez mais, do uso adequado de tecnologias de informação e o compartilhamento de conteúdos adequados para uma gestão eficiente. Foi pensando nisso que o Fórum Permanente da Microempresa e Empresas de Pequeno Porte concebeu o projeto dos telecentros de informação e negócios (TINs), um ambiente projetado para oferecer as condições necessárias de acesso às modernas tecnologias de informação e comunicação e conteúdos voltados para a projeção dessas empresas. Tratase de uma estratégia do governo para incluir o empreendedor brasileiro na sociedade da informação. 

É uma boa idéia que, contudo, nem é tão nova. Surgiu da necessidade de um processo de inclusão digital amplo no Brasil que, no enfoque dos telecentros de informação e negócios, está mais voltado para as empresas. Foi o Comitê Temático de Informação do Fórum Permanente das Microempresas e Empresas de Pequeno Porte que percebeu essa carência e, em 11 de dezembro de 2001, estava inaugurado o primeiro telecentro, no Piauí, por meio de uma videoconferência realizada a partir de Brasília, onde o então ministro do Desenvolvimento, embaixador Sérgio Amaral, abria a terceira reunião do Fórum. Desde então, o sistema dos telecentros de informação e negócio pouco cresceu até que, em abril de 2004, o ministro Luiz Fernando Furlan anunciou oficialmente uma nova fase de expansão para o projeto, que passará dos atuais 50 já instalados para 500 até o final deste ano.

De acordo com o secretário de Tecnologia Industrial do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (STI/MDIC), RobertoJaguaribe, a primeira preocupação do governo foi dar consistência ao conteúdo que seria oferecido. "Mais importante do que simplesmente expandir o acesso à internet, sobretudo para este público específico, é dotálo de um conteúdo que tenha utilidade para o seu negócio", avalia o secretário, que também acumula o cargo de presidente do Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (INPI). 

"Resolvemos expandir agora, pois já temos conteúdo relevante para oferecer ao micro e ao pequeno empresário", justifica Jaguaribe, lembrando a
importância das parcerias que ajudaram a desenhar e a elaborar os conteúdos durante todo o ano passado e que podem ser acessados por meio da página http://www.telecentros.desenvolvimento.gov.br,hospedado e mantido pelo MDIC. 

"No site há uma enorme variedade de informações disponíveis ao micro e pequeno empresário e de um ferramental de acesso espetacular", ressalta o secretário, destacando a facilidade da visualização gráfica feita por meio da árvore hiperbólica, resultado de um software desenvolvido pela Embrapa Informática Agropecuária, que agiliza o acesso a conteúdos em larga escala. 
  

Funcionalidade do software Hipervisual, desenvolvido pela Embrapa Informática Agropecuária, que auxilia o usuário a visualizar todo o conteúdo por meio de uma representação gráfica que se assemelha a uma árvore,com seus galhos e ramos. 

O comércio eletrônico é outro elemento importante dentro das funcionalidades previstas para o site de forma a atender as necessidades dos telecentros. "Este é um passo extremamente importante porque permite às microempresas ampliarem seu universo de negócios", afirma Jaguaribe, que assegura que o sistema está sendo bem elaborado e conta com uma importante parceria com os Correios, de modo a contemplar toda a logística envolvida no fluxo de comércio.

PARCERIAS
As parcerias, aliás, são consideradas estratégicas para a difusão e ampliação da capilaridade dos telecentros. De acordo com o seu envolvimento, podem ser classificadas em três categorias: para a ampliação da rede, para enriquecimento de conteúdos e para o desenvolvimento das ferramentas (softwares) que serão utilizados.
"Alguns parceiros contribuem em mais de uma categoria, outros em todas", diz Roberto Jaguaribe, acrescentando que a montagem de parcerias faz com que os telecentros tenham um custo de desenvolvimento muito mais reduzido. 

Um TIN pode funcionar como ferramenta de capacitação de empresários e trabalhadores, por meio de cursos e treinamentos presenciais e à distância. Também oferece serviços e possibilita a criação de oportunidades de negócios, fortalecendo as condições de competitividade da microempresa e da empresa de pequeno porte. Mas talvez a sua principal função seja servir como ponto de referência para aproximar os empreendedores e empresários das instituições públicas e privadas, organizações não-governamentais e a sociedade em geral. 

Basicamente, cada telecentro de informação e negócio é constituído por 11 computadores (sendo um servidor com acesso à internet e 10 clientes conectados a este servidor por meio de rede local); softwares de apoio para uso genérico (editores de texto, planilhas, etc.) e softwares de aplicação de comércio eletrônico e aplicativos comerciais, além de outros recursos que completam o ambiente de operação, tais como impressoras, scanner e webcam. O custo aproximado para a montagem dessa estrutura está em torno de R$ 30 mil.

 "Alguns dos problemas potenciais dos TINs dizem respeito exatamente à sua instalação e à sustentabilidade", reconhece Roberto Jaguaribe. Por isso, há muitas possibilidades que podem representar aportes para os telecentros, como as parcerias com os bancos, como a Caixa e Banco do Brasil, que já foram contatados. "Outra possibilidade são as parcerias com as empresas de telecomunicações que têm todo o interesse em se envolverem", lembra o secretário da STI e presidente do INPI. 

O modelo original, que continua em vigor, é o de estabelecer os telecentros em associações de microempresários que queiram adentrar nesse mundo de informática. O casamento melhor, porém, acontece entre os telecentros e os arranjos produtivos locais, que são conglomerados de micro e pequenas empresas focadas em um determinado setor. Para isso, muitas delas buscam apoio de recursos junto a entidades que financiam o valor dos equipamentos, como o Sebrae – Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas. Já a manutenção e a infra-estrutura ficam a cargo do próprio telecentro. 

Segundo o coordenador do telecentro de informação e negócio de Planaltina (DF), Douglas André Muller, um dos principais serviços oferecidos pelos telecentros são os cursos de introdução à informática, que utilizam metodologias de inclusão digital da ONG Comitê para Democratização da Informática (CDI), que possui em sua rede mais de 550 Escolas de Informática e Cidadania distribuídas por quase todos os estados do país. "Queremos primeiramente acabar com aquela barreira que existe entre o comerciante e o computador. Depois, o resto vem naturalmente, ou seja, pesquisas, levantamentos de custos, rodadas de negociação, etc.", explica Douglas, referindo-se ao medo inicial do micro empresário em relação ao uso de computadores, que é superado logo em seguida com a obtenção dos resultados, como a agilização de cálculos realizados em planilhas eletrônicas e a facilidade com as pesquisas realizadas na internet. 

"O pessoal está começando a descobrir o serviço do telecentro agora, até porque ainda não há muita divulgação por parte do governo ou do Sebrae", lamenta Douglas. Por isso, ele lembra que nesta fase é necessário o treinamento inicial dos empresários antes da apresentação do conteúdo oferecido para o empreendedor no site dos telecentros ou, ainda, das ferramentas desenvolvidas pelo MDIC juntamente com o Serpro, como a Vitrine do Exportador ou o Radar Comercial, mecanismos que facilitam o planejamento das exportações. 

O telecentro de Planaltina – que está instalado naAssociação Comercial e Industrial da cidade – é um dos quatro implantados atualmente no Distrito Federal e participou do lançamento do primeiro edital do Sebrae-DF para aquisição de equipamentos para telecentros de informação e
negócios. "Passamos pelas três fases do edital e pudemos inaugurar o telecentro em novembro de 2003", comemora Douglas. O objetivo agora é tornar o projeto auto-sustentável por meio dos cursos, que também são abertos à comunidade, e os serviços oferecidos ao empresariado local. "Estamos em uma associação comercial, que é uma entidade representativa da classe comercial. Por isso procuramos dar prioridade ao nosso associado, mas, se estamos falando em inclusão, não podemos deixar de atender a comunidade", lembra. 

Na visão do executor do projeto telecentros no Sebrae-DF, Renato Júnior, o objetivo dos telecentros de informação e negócios é sensibilizar o micro e o pequeno empresário, por meio das associações, e mostrar-lhes algumas facilidades que a tecnologia da informação pode oferecer e que irão beneficiá-los de alguma forma”. Para o Sebrae “é importante que a instituição seja forte, porque é por meio dela nós poderemos fazer o desenvolvimento empresarial", diz Júnior, para quem, daqui a algum tempo, o telecentro passará a fazer parte do dia-a-dia do pequeno empresário. "A idéia é que o empreendedor sinta-se à vontade com o telecentro para acessar o seu correio eletrônico, consultar pedidos, dar manutenção na sua página, entre outras coisas", exemplifica. Renato Júnior lembra, ainda, que o Sebrae já vem desenvolvendo alguns produtos com o perfil de utilização pelos telecentros, como os cursos virtuais oferecidos pela internet e disponíveis no endereço: http://educacao.sebrae.com.br

Atualmente, estão disponíveis os cursos "Como Vender Mais e Melhor" e o "Aprender a Empreender". O público-alvo são donos de empresas de pequeno porte, futuros empreendedores e pessoas interessadas em obter informações sobre o mundo dos pequenos negócios. A meta do Sebrae é fomentar a instalação de 108 unidades no Brasil. Serão contempladas associações empresariais, entidades associativas e Organizações Locais da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIPs). 

Já a meta do governo é bem mais ambiciosa. Pretende que haja pelo menos um telecentro de informação e negócios em cada município, ou seja, 5.560 pontos de acesso à internet ligados a uma rede de informações especialmente modelada para facilitar o planejamento de novos negócios. 

"O Ministério do Desenvolvimento tem um mandato de articular o processo e é o que temos feito até o momento", afirma Roberto Jaguaribe, que garante que há também um grande esforço, por iniciativa do ministro Furlan, de se agregar todos os projetos governamentais voltados para a inclusão digital. Assim, os telecentros de informação e negócios, voltados para o micro e pequeno empresário, se juntariam aos projetos do Ministério da Educação, interligados aos pontos de acesso fomentados pelo Ministério das Comunicações. Esses ministérios também integrariam a rede de telecentros voltados para a cidadania, que são aqueles apoiados por organizações não governamentais e entidades como o Comitê para Democratização da Informática e suas Escolas de Informática e Cidadania. 

Na visão do governo, os telecentros oferecem uma possibilidade quase ilimitada de recursos a serem explorados, como os próprios serviços de governo eletrônico, que terão uma massificação em termos de acesso graças a telecentros dessa natureza. Isso faz com que os serviços sejam prestados com mais agilidade, com menor custo e atingindo mais beneficiários. Tudo isso é importante porque pode representar uma forma de sustentação dos telecentros. 

"A grosso modo, a questão do telecentro é isso aí", resume Roberto Jaguaribe, que acredita que o mero fato de se oferecer acesso às tecnologias de informação e comunicação a um empresário um pouco mais criativo já pode gerar casos de sucesso, como ocorreu logo no primeiro telecentro inaugurado em Teresina (PI), quando, "a partir de algumas consultas e pesquisas obtidas no telecentro, um empreendedor pôde ampliar sua carteira de produtos, ampliando seu negócio", conta. O telecentro, neste caso, funcionou como um verdadeiro indutor de mercado. 

O conceito de Telecentro de Informação e Negócios teve sua origem no Comitê Temático de Informação do Fórum Permanente das Microempresas e Empresas de Pequeno Porte que, por sua vez, foi criado por meio do Decreto nº 3.474, de 19 de maio de 2000. O Fórum é composto por órgãos governamentais, entidades derepresentação empresarial habilitadas e por várias instituições de apoio ao segmento. Desde a sua instalação, o Fórum vem-se constituindo em um espaço de debates e de conjugação de esforços entre o governo e o setor privado para a execução de medidas e políticas adequadas a esse segmento empresarial. Ao mesmo tempo, o ambiente estabelecido pelo Fórum tem buscado proporcionar a consolidação e a soma de esforços do governo e da iniciativa privada voltadas ao apoio das microempresas e empresas de pequeno porte.